As mobilizações populares não mais se baseiam num modelo de sociedade total ou na cristalização, em termos de equivalência de um único conflito que divida a totalidade do social em dois campos, mas numa pluralidade de exigências concretas, conduzindo a uma proliferação de espaços políticos. Esta é a dimensão que, assim me parece, é a mais importante a ser esclarecida por nós, durante os debates: em que medida as novas mobilizações rompem com um imaginário totalizante ou, ao contrário, em que medida elas permanecem aprisionadas nele? Este problema envolve uma questão de fundamental importância para o futuro da democracia na América Latina: será que a experiência de abertura dos sistemas políticos, após a crise das ditaduras, leva a uma reprodução dos espaços políticos tradicionais, com base numa dicotomia que reduza toda a prática política a uma relação de representação? Ou será que a radicalização de várias lutas baseadas numa pluralidade de posições de sujeitos leva a uma proliferação de espaços, reduzindo a distância entre representante e representado?

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Respostas

2013-11-11T18:56:31-02:00
Vamos considerar que cada 'ponto de interrogação' esteja esteja antecedido por perguntas cujas respostas estão na ordem abaixo:

1) As mobilizações rompem com o imaginário totalizante à medida que e constituem múltiplos grupos políticos na praça pública e, cada grupo, tem para si a defesa de valores e bandeiras que ao entrarem em conflito permitem supor a heterogeneidade de perspectivas políticas - a própria multiplicidade ideológica traduz a quebra de totalização. As mobilizações estão aprisionadas a totalização à medida que não há uma perspectiva de reinvenção do modelo político existente, mesmo que haja esse desejo, não há uma proposta clara, concreta e detalhada possível.

2) Não leva a reprodução porque o dinamismo da sociedade atual é diferente do existente durante o período pré-ditadura. Naquele momento a guerra fria impunha modelos bipolares de interpretação da realidade (ou se era socialista e ou se era pró-capitalismo). Já atualmente esse tipo de interpretação superou com a introdução de novos grupos sociais antes excludentes e na renovação da agenda internacional, como a questão ambiental, a educação e os direitos humanos.

3) Evidentemente que a proliferação de espaços permite ao cidadão mais canais de diálogo e exposição de ideias e valores, o que melhora a relação entre aqueles que são eleitos para representar  e o próprio representado.