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2014-03-12T18:16:01-03:00
Hoje em dia o teatro é chamado de Contemporâneo. Profusão de cenário, figurinos e adereços não são mais necessários. Entra agora a criatividade do diretor e dos atores para trabalhar a imaginação do público! O teatro tendo como meta distanciar-se da Tv, dos formatos das novelas e seriados. Evitar os clichês, as piadas repetidas.
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2014-03-12T18:19:01-03:00
O teatro nao para de mudar de forma. O lugar que ele ocupa na vida social tambem muda e remodela em conseqencia disso a funcao dessa arte na sociedade. Por exemplo, poderiamos dizer que a experiencia Vilar coloca um ponto final numa ideia de teatro como arte civica, dispositivo central no coracao de uma coletividade, capaz, em razao dessa propria centralidade, de contribuir para a fabricacao de uma boa sociedade. Essa tematica aflora nos textos de Diderot, Lessing, Goethe, Brecht e, claro, Vilar. Evidentemente, o modelo de sociedade e os objetivos variam de um autor para outro e de um conteudo ideologico para outro, mas permanece em todos eles a ideia de que o teatro participa amplamente da edificacao social. 
Hoje, o teatro nao mais ocupa o centro da vida coletiva. Ele se tornou uma arte minoritaria. Isso nao quer dizer uma arte insignificante, nem uma arte em vias de desaparecimento. Sua capacidade de repercussao na vida social nao pode competir com a da televisao. Mas, em contrapartida, enquanto a televisao se instala cada vez mais dentro da ordem da Mesmice (porque nao e impunemente que se pratica a busca das grandes audiencias), o teatro ampliou muito a liberdade que lhe permite explorar territorios novos na escrita e na encenacao. Os vinte ultimos anos viram saltar em pedacos os canones do possivel ou do impossivel em cena. Textos considerados irrepresentaveis e nao destinados ao teatro encontraram publico: o corpo e o espaco se renovaram na performance ou no teatro/danca; a escrita dramatica explorou dramaturgias ineditas ate entao. Pensemos, por exemplo, em autores como Mller, Botho Strauss, Kolts, Novarina etc. Certamente, tambem ha forcas arrasadoras em acao tentando frear, por todos os meios, o desdobramento dessa liberdade. E diante da possibilidade do novo, o reflexo de seguranca (desencadeado por mil razoes, das mais sociologicas como a rentabilidade as mais pessoais como o envelhecimento) continua insistente. Mas seja qual for a dificuldade de exercer plenamente seus efeitos, a ampliacao de territorios ja deu grandes provas de sua existencia. Predomina a impressao (ao mesmo tempo real e ilusoria) de um tudo e legitimo no teatro e essa abertura traz consigo a questao, urgente para cada um, de saber o que significa o ato teatral para si. 
No teatro, gosto do sentimento de necessidade. O trabalho teatral me interessa cada vez que ele instaura uma relacao especifica com a obra, uma abordagem na qual as redes da linguagem, do tempo e do espaco se cristalizam nos corpos de uma tal forma, que a conjuncao provoca em quem assiste um efeito de desconhecido, mesmo quando se trata das obras mais conhecidas. Hoje ainda, e muitos anos ja se passaram, continuo a lembrar-me de Andromaca e de Fedra, de Racine, exatamente como Antoine Vitez as havia montado, e do efeito de desconhecido dentro do conhecido que eu senti naqueles momentos. Nesses espetaculos, havia algo mais que o exito estetico, no sentido estreito do termo: havia efeitos de significado que arrancavam as obras representadas de seu pertencimento cultural codificado, que as arrancavam do mundo pre-fabricado de seu destino escolar ou mundano, para que aparecessem finalmente como forcas artisticas raras, como momentos de tormento do espirito, em que desaparece o valor tranqilizador de um Racine sublime. Essas montagens transformaram para mim e provavelmente para outros a doxa cultural em um momento de existencia plena. 
Toda realizacao estetica, por mais sofisticada que seja, parece-me um pouco va se nao colocar no amago das coisas essa vontade de arrancar a experiencia artistica da cultura entendida como modo de distracao dominante de uma pequeno-burguesia escolarizada, avida por encontrar prazeres por meio dos quais ela possa, prioritariamente, rentabilizar seu lazer, suas ferias e seu investimento nos diplomas. Quando essa vontade existe num encenador e, principalmente, quando ele tem a sensibilidade e a inteligencia de dar uma forma concreta a essa vontade (um discurso bem intencionado, infelizmente, nao basta para garantir a existencia real da coisa), segue-se uma serie de conseqencias, entre as quais a constituicao de uma identidade cenica que interrogue a obra (bem mais do que representa-la) e, portanto, obrigue o espectador a refletir sobre sua propria identidade (pessoal e social) diante da obra que ele veio ver. Evidentemente, excluo aqui a possibilidade de se ir ao teatro apenas para fruir do trabalho cenico, considerando a obra como um meio comodo que permite melhor observar as diferencas de direcao. A obra e a questao que a encenacao lhe coloca me parecem igualmente capitais. Nao penso num teatro anterior a era da encenação, mas tambem nao penso em um teatro fabricado a revelia do texto, no qual o achado (para falar como Barthes) sufoca o significado quando nao consegue ligar a arte ao real. 
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