Respostas

2013-07-04T23:07:09-03:00
Tanto quanto uma erudita exposição sistemática, este pequeno mas denso livro de 
Norberto Bobbio é um instigante libelo contra todos os que desprezam a clássica 
dicotomia direita/esquerda. Traço peculiar da chamada cultura "pós-moderna", a alegação de que os conceitos de esquerda e direita tornaram-se obsoletos com a crescente  complexidade das estruturas sociais e sobretudo com a crise do socialismo (do comunismo, da social-democracia) parece querer impregnar numerosos ambientes políticos e intelectuais. Muitas vezes apresentada sob as vestes de melhor rigor científico, a alegação, na verdade, cumpre a função de emprestar opacidade a este complicado fim de século. Não por acaso, seu principal argumento apóia-se na discutível constatação de que "destros" e "esquerdos", no fim das contas, formulam programas idênticos e propõem-se os mesmos fins imediatos. Não mereceriam, por isso, ser vistos como campos diversos 
ou receber nomes distintos. Quando muito, poderiam ser substituídos por outra 
dupla: "progressistas" e "conservadores". A polêmica de Bobbio parte da reafirmação de uma obviedade: não se pode negar validade àquilo que opera plenamente na política, àquilo que está colado no imaginário e na linguagem da vida cotidiana, que ainda serve para dar aos homens identidade e argumentos para pelejar por seus projetos e utopias. 
Apesar de renegadas, direita e esquerda persistem como palavras-chave do discurso 
político, preservando toda a carga emotiva com que têm sido empregadas desde a 
Revolução Francesa. Embora reforçado pela conhecida preocupação analítica de Bobbio e por sua obstinação em manter distância dos juízos de valor, Direita e Esquerda está longe de ser um texto tecnicamente frio. Trabalhando em um ambiente marcado pelo ressurgimento impetuoso da cultura de direita e dos valores do capitalismo, Bobbio deseja participar do debate sobre a "morte" da esquerda, buscando pensar os termos de uma nova definição, mais afinada com os desafios e as particularidades atuais. Suas teses de que o igualitarismo é característica distintiva da esquerda não são apenas um gesto politicamente significativo nesta época de confusão: mostram-se como esforço para 
emprestar clareza teórica e vigor ideológico aos difíceis, e nem sempre transparentes, embates políticos dos nossos dias. Equilibrando-se entre o empenho político-cultural e o "espírito analítico", entre os ideais do liberalismo e do socialismo, o presente texto nem sempre resolve os temas que faz chegar à superfície. Bobbio porém não pretende esgotar a discussão. Seu objetivo é mostrar a atualidade e a eficácia de uma dicotomia cada vez mais vilipendiada e encontrar, com isso, um meio de repor a política como universo repleto de paixões, contrastes e contradições. Num momento em que, no Brasil e no mundo, uma grave crise de perspectivas prolonga-se viçosamente à luz do dia, fazendo par e, num certo sentido, potencializando a reprodução de imensas zonas de miséria e injustiça, os questionamentos de Bobbio são um saudável convite para que se afiem os instrumentos de análise e não se perca de vista o valor das diferenciações. No que diz respeito particularmente às esquerdas, soam como estímulo para que se leve a 
bom termo uma aprofundada reflexão autocrítica. Marco Aurélio Nogueira.