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2013-09-02T20:07:44-03:00
Fim do século 19. Cena 1: o marechal Deodoro da Fonseca, acompanhado dos militares, proclama a República no Brasil. Cena 2: junto com a família real, a monarquia sai de cena. Cena 3: é instaurado um regime que se denomina público e afirma que o povo é soberano. Cena 4: a população, em acordo com a novidade e com os homens no poder, segue a vida. Corta. Sobe o letreiro: "E todos foram felizes para sempre". 

Esse não pode ser o filme que passa pela cabeça dos estudantes quando o estudo dos anos iniciais do período republicano é trabalhado em classe. Primeiramente, eles precisam entender que a troca de regime não ocorreu num momento de calmaria. Deodoro da Fonseca concordou em se virar contra dom Pedro II numa época em que a economia estava abalada com a inflação alta e com uma superprodução de café. E ainda havia uma crescente massa de desempregados (acentuada pela libertação dos escravos, que não encontravam lugar na sociedade), o que só piorava a situação. 

O professor precisa encaminhar os alunos a compreender também que os primeiros 30 anos que se seguiram não foram um mar de rosas. Além dos problemas já citados, quem assumiu o controle do país foram as oligarquias, não representantes autênticos do povo, como o termo república indica: palavra do latim, significa "coisa pública". "O novo sistema prometeu mecanismos democráticos de participação popular, mas não entregou", diz Rogério Baptistini, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). 

Prova disso é que várias revoltas populares eclodiram em pontos distintos do país (leia a linha do tempo que ilustra esta reportagem). Usá-las para apresentar o cenário inicial do período é uma boa estratégia desde que sejam levadas em conta todas as conjunturas históricas e as reações do governo - que enxergava ameaças monarquistas por todos os lados, segundo Ivone Gallo, doutora em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

Na exploração do panorama, é preciso deixar claro que se tratava de movimentos representativos e sérios. O historiador Nicolau Sevcenko, ao analisar a revolta da Vacina e o reduzido número de mortos divulgado pelas autoridades, chama a atenção para a tentativa desleal do governo de reduzir uma autêntica rebelião social à caricatura de uma simples baderna urbana. 

O estudo dos levantes sociais como um conjunto é importante ainda para desmitificar o senso comum que apresenta o povo brasileiro como historicamente cordial. "Os movimentos da Primeira República foram, em sua maioria, muito sangrentos", diz Paulo Machado, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A guerra de Canudos, a do Contestado e a Revolução Federalista, por exemplo, são consideradas por Sevcenko as três grandes chacinas da Primeira República em nosso país. 

Um alerta: é comum os alunos encararem lutas sociais e políticas como um jogo, onde há dois lados e após uma disputa um sai vitorioso, e o outro, derrotado. Ao trabalhar o tema e a conquista (ou não) das reivindicações, é preciso evitar a ideia de que a resistência social só se efetiva quando as demandas e as propostas dos revoltados são atendidas. "A mobilização dos aparatos do Estado diante de manifestações sociais deve ser considerada na construção de uma noção de resistência também", explica Pedro Henrique Ravelli, professor da Escola da Vila, na capital paulista. 

Encadeando os fatos desse modo, levando em conta acontecimentos anteriores e posteriores, é possível ajudar os estudantes a construir um percurso histórico do período da Primeira República com nexo - e adquirir uma bagagem de qualidade para estudar o que vem pela frente no currículo: a era Vargas (leia a sequência didática). 

Porém, mais do que falar a respeito dos estragos materiais provocados pela Revolta do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, ou da Revolução de 1924, em São Paulo, é fundamental fazer uma conexão entre elas e a ruptura de 1930, quando Getúlio Vargas inaugura uma nova fase da República. "Foram as elites civis desvinculadas da grande agricultura de exportação e alguns setores da jovem oficialidade militar que conduziram essa mudança", explica Baptistini. Novamente, o povo teria de esperar outra oportunidade para ter voz política ativa no cenário nacional.