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2013-04-16T21:11:43-03:00

Muito se tem dito sobre as possibilidades de expressão do corpo em nossa sociedade contemporânea. Contudo, a noção de corpo suscita, de imediato, um questionamento central: que corpo e que concepção de corpo estamos buscando ao longo de nossa história, tendo em vista que a espécie humana, de alguma forma, muito antes da polis grega, já teria construído algum tipo de conhecimento sobre o corpo. Podemos dizer que o marco referencial da discussão em busca da corporeidade tem sido aquilo que se passou a denominar de conhecimento moderno, ou seja, aquele conhecimento que emergiu a partir da crise do feudalismo com a chamada Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, retomando, por assim dizer, o logos grego por meio de releituras de obras como as de Platão e Aristóteles, o que proporcionou a emergência de uma epistême renascentista que iria fundar novas bases para o conhecimento moderno e, por conseguinte, uma grande transformação nos diferentes aspectos do fazer humano1.

    Neste período, do Renascimento, a Filosofia e a Ciência seguiam uma única direção, qual seja: a busca por verdades indubitáveis2. A filosofia de Descartes fundou-se numa filosofia reflexiva, isto é, cada vez mais o ser humano é levado a refletir, buscando conhecer-se; já o conhecimento científico fundou-se excluindo o sujeito do seu objeto de conhecimento. Observou-se uma ruptura entre a reflexividade da Filosofia, ou seja, a possibilidade do ser humano pensar e refletir e a objetividade do saber científico. Surge, assim, uma ciência sem consciência. O abandono da noção de humano, o fazer humano nas ciências humanas, por outras palavras, o homem acabou por "desaparecer". A vida, como um todo, deixou de ser objeto de reflexão (FLORENTINO, 2006).

    Assim, no que tange à educação e, porque não dizer, à educação corporal, essa passou a se pautar nos pressupostos do racionalismo moderno, o qual instituía códigos morais que ditavam as condutas, reprimindo as diversas manifestações (expressivas) do corpo humano. A esse respeito, Mendes e Nóbrega (2004, p. 125) afirmam que:

O corpo humano, ao ser comparado com uma máquina hidráulica, recebe uma educação que o considera apenas em seu aspecto mecânico, sem vontade própria, sem desejos e sem o reconhecimento da intencionalidade do movimento humano, o qual é explicado através da mera reação a estímulos externos, sem qualquer relação com a subjetividade. O pensamento de Descartes, fundado no exercício do controle e no domínio da natureza, influencia a educação através da racionalização das práticas corporais. Ao ter como princípios a utilidade e a eficiência, busca-se a padronização dos corpos [...].

    Ao refletirmos, no entanto, sobre as transformações que ocorreram ao longo do século XX, percebemos mudanças na forma como vemos e pensamos o corpo. Na Biologia, percebemos essas modificações quando se passou a considerar que organismos e meio ambiente coexistiam, ultrapassando a visão mecanicista de mundo. Na Antropologia, também ocorreram modificações significativas que teriam grande repercussão sobre os conceitos de corpo, cultura e natureza, quando o antropólogo Claude Lévi-Strauss publicou sua obra As estruturas do parentesco em 1949. Em seu livro, Lévi-Strauss teceu duras críticas à antítese entre natureza e cultura, preconizada pela Sociologia na época. Lévi-Strauss defendia a substituição dessas antinomias por relações de complementaridade (MENDES; NÓBREGA, 2004). Em outros termos, para o autor, natureza e cultura se complementavam, eram um "todo". Dessas reflexões, surgiram contribuições importantes para a compreensão do que vem a ser corpo.

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