Durante muito tempo, os historiadores colocaram a coleta e a agricultura como duas experiências que marcam uma completa ruptura na civilização. Contudo, novas pesquisas apontam que essas duas atividades conviveram durante muito tempo na história do homem. A princípio, a agricultura ocupava uma função complementar na alimentação, sendo assim colocada como outra via de sobrevivência paralela à caça e a busca de frutos ou plantas.

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2014-03-14T19:00:13-03:00
O Homo sapiens sapiens se espalhou pelo globo e aumentou esmagadoramente em número nos últimos 50 mil anos – de estimados cinco milhões de pessoas em 9.000 a.C. para os cerca de 6,5 bilhões de hoje. Um número maior de pessoas significa mais oportunidades para que as mutações cheguem despercebidas ao genoma humano básico, e novas pesquisas confirmam que nos últimos 10 mil anos assistiram a uma série de mudanças em tudo, da digestão aos nossos ossos. 

“Descobrimos muitos genes humanos passando por uma seleção”, explica o antropólogo Gregory Cochran, da University of Utah, membro da equipe que analisou 3,9 milhões de genes que demonstraram uma variação maior. “A maioria é muito recente, o que indica que o ritmo da evolução humana nos últimos milhares de anos é muito mais veloz que nos últimos milênios”. 

“Acreditamos que isso possa ser explicado por um aumento no poder da seleção à medida que os humanos se tornaram agricultores – uma grande mudança ecológica –, e houve uma grande elevação no número de mutações favoráveis à medida que a agricultura levou a um aumento populacional”, ele afirma.
Há cerca de 10 mil anos, a humanidade passou pela transição de uma vida de caçadores e coletores para o plantio de alimentos e a domesticação de animais. Como isso concentrou as populações, doenças como a malária, a varíola e a tuberculose, entre outras, se tornaram mais virulentas. Ao mesmo tempo, a nova alimentação com base na agricultura impôs seus próprios desafios – incluindo a deficiência de ferro no organismo devido à falta de carne, além das cáries e uma estatura mais baixa por causa da má alimentação, explica o antropólogo John Hawks, da University of Wisconsin–Madison, outro membro do grupo. 

“O corpo e os dentes dessas pessoas encolheram, assim como seu cérebro”, ele completa. “No entanto, elas começaram a apresentar novos alelos (formas alternativas de genes), que os ajudaram a digerir os alimentos com maior eficiência. Os novos alelos protetores permitiram a uma fração da população sobreviver melhor às terríveis doenças.”

Ao observar as fileiras de material genético que mudavam pouco de pessoa para pessoa dentro dessas seções de grande variação, os pesquisadores identificaram regiões que apareceram recentemente e conferiam algum tipo de vantagem (porque se tornaram comuns rapidamente). Por exemplo, o gene conhecido como LCT deu aos adultos a capacidade de digerir leite, enquanto o G6PD ofereceu algum tipo de proteção contra a malária causada pelo parasita Plasmodium falciparum.
“Há dez mil anos, ninguém no planeta tinha olhos azuis”, ressalta Hawks, pois esse gene – OCA2 – ainda não tinha se desenvolvido. “Somos diferentes das pessoas que viveram 400 gerações atrás em maneiras muito óbvias, visíveis a olho nu.” 

A comparação da quantidade de diferenciação genética entre os humanos e nossos parentes mais próximos, os chimpanzés, indica que o ritmo das mudanças foi acelerado entre 10 e 100 vezes, relatam os pesquisadores no Proceedings of the National Academy of Sciences USA.

Mas nem todas as populações demonstram a mesma “velocidade evolutiva”. Os africanos, por exemplo, mostram um ritmo um pouco mais lento de mutação. “Os africanos não tiveram que se adaptar a um clima muito diferente”, já que a humanidade evoluiu onde eles moram, explica Cochran. “Europeus e asiáticos do Leste, por sua vez, vivem em ambientes muito diferentes daquele de seus ancestrais africanos e primeiros agricultores, e eram mal-adaptados a eles”. 

Esse ritmo acelerado de evolução não diminuirá até que toda mutação benéfica possível comece a acontecer – no ritmo máximo de adaptação. Isso já começou a ocorrer em algumas regiões com a cor da pele: grupos diferentes de genes são responsáveis pela tez mais clara de europeus e asiáticos do Leste, de acordo com os pesquisadores.