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2014-05-10T14:45:25-03:00

As considerações de Norbert Elias sobre essa controversa questão possibilitam criticar as formas como geralmente é equacionada e aponta para a influência negativa que as ciências naturais (ainda) exercem sobre as ciências sociais: freqüentemente, o problema é colocado como o cotejar entre substâncias distintas – Indivíduo vs. Sociedade –, essências puras e indissociáveis, entes em oposição. Desse modo, afirma-se equivocadamente o primado de um ou de outro, tomando-se, por um lado, a sociedade como uma generalidade intransponível e impossível de ser decomposta e, por outro lado, o indivíduo como algo atomizado, não suscetível de ser universalmente considerado. Daí a tensão estéril entre os termos, o duelo ad nauseum entre substâncias irredutíveis e não intercambiáveis.
Em vez de tomar tais termos como substâncias isoladas, Elias considera as suas relações e funções, o que implica tomar os termos de modo relacional e dinâmico, fundindo-se e refundindo-se, integrando-se e distinguindo-se, em contínua interação. Tal forma de abordagem, obviamente, supõe desfazer o nó que impede o fluxo do pensamento do âmbito da sociologia para o da psicologia e vice-versa. O próprio título do principal trabalho do autor sobre o tema já dá suficiente noção de sua caracterização do problema: em “A sociedade dos indivíduos” (1994), Elias deixa claro que a sociedade é formada por indivíduos e estes são constituintes da sociedade – ambos inexoravelmente imbricados, não sendo possível considerar os termos separadamente. Afirma ele que não há sociedade sem indivíduos e, analogamente, não há indivíduos sem sociedade. Portanto, seria um “absurdo” tomar os termos de outro modo que não aquele da cumplicidade.Os indivíduos, conforme seus habitus, são integrantes/constituintes da sociedade, modelando-a e modelando-se ao relacionarem-se uns com os outros, pois esse ‘atrito’, essa relação tensa, dinâmica e mútua entre os indivíduos configura o que chama de fenômeno reticular.  Tal processo de individuação não é o mesmo em qualquer sociedade e em qualquer tempo histórico, pois cada sociedade e cada momento histórico têm modos e ritmos próprios que, por sua vez, determinam formas também particulares de configuração e de inter-relação entre indivíduo e sociedade. Não há, assim, uma fórmula, uma maneira genérica de tratar a questão, não há conceitos férreos que possam nortear uma ‘teoria geral’ da relação indivíduo/sociedade.Na sociedade humana, as trajetórias sociais são como planos emergindo em que há sensos de propósito que se entrecruzam, mas sem finalidade (ELIAS, 1994: 59). Portanto, os empreendimentos simples, volitivos e individuais não ocorrem num vazio de determinações sociais, nem são meras funções de alguma espécie denecessidade histórica coletiva e extrínseca. Nesse sentido, ocorre que a sociedade produz o indivíduo e que o indivíduo molda-se em contínua ação com outros indivíduos, o que, assim sendo, influencia – em última instância – a própria forma dinâmica da sociedade. Enfim, a relação identidade-eu/identidade-nós não comporta uma oposição excludente, dá-se em termos de mudanças na balança nós-eu, estabelecendo um equilíbrio tenso, diferenciado conforme a disposição dos termos em cada sociedade, em cada período histórico.
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