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2014-07-09T16:26:00-03:00
Países de toda a Europa estão procurando, muitas vezes sem sucesso, integrar a sua população muçulmana -que cresce com rapidez e que às vezes se mantém isolada-, no sentido de fazer com que ela interaja com as sociedades européias, democráticas e geralmente seculares.

E, no momento em que o número cada vez maior de imigrantes provoca um sentimento de resistência contra os muçulmanos, líderes de 25 países da União Européia (UE), que se reuniram na última quinta-feira em Bruxelas, aprovaram o início das negociações de 3 de outubro, que poderão culminar na entrada da Turquia para a organização.

A população muçulmana na Europa triplicou nos últimos 30 anos, chegando a 23 milhões, e os especialistas prevêem que ela dobrará até 2020. Calcula-se que entre 15 e 18 milhões de muçulmanos vivam hoje em países membros da UE. 

A Turquia provavelmente levará pelo menos uma década para entrar para a UE. Mas basta a possibilidade de um país predominantemente muçulmano de 72 milhões de habitantes ingressar na organização para causar polêmica. As pesquisas de opinião indicam que as populações de certos países se opõem fortemente à idéia.

Caso a Turquia ingresse na organização, a população muçulmana da UE, que atualmente representa 3%, saltará para 20% do total.

"Penso que os europeus precisam se auto-analisar bastante", opina Franco Pavoncello, cientista político e reitor da Universidade John Cabot, em Roma. "Basicamente, a experiência com a integração na Europa não teve muito sucesso. Certamente não houve o sucesso que ocorreu nos Estados Unidos. As comunidades muçulmanas nos Estados Unidos são bem mais integradas do que as da Europa".

Certos acontecimentos recentes expuseram as tensões que permeiam as sociedades européias: 

O assassinato, em novembro, de um cineasta que criticava o islamismo motivou vários episódios de ataques por incendiários contra mesquitas holandesas.

O número crescente de estudantes muçulmanos na França fez com que neste ano o governo daquele país proibisse o uso do véu nas escolas, sob a alegação de que esse tipo de hábito religioso é incompatível com a tradição secular do país.

Desde os ataques de 11 de setembro de 2001, as autoridades descobriram células da Al Qaeda em vários países europeus, incluindo Reino Unido, Espanha e Alemanha, fazendo com que a questão dos imigrantes muçulmanos, aos olhos de certas pessoas, passasse a ser não só uma questão social, mas também de segurança.

Algumas cidades européias, como Marselha e Roterdã, possuem atualmente populações muçulmanas que chegam a 25% do total de habitantes. Em outras, como Paris, Londres e Copenhague, esse número chega a mais de 10%. Grandes bairros sofreram transformações. No distrito berlinense de Kreuzberg, por exemplo, que abriga milhares de trabalhadores teoricamente temporários que, na prática, ficaram no país permanentemente, surgiu uma cultura jovem marcada pelo desemprego e pela alienação. 

Nos últimos anos, partidos que apóiam medidas severas contra a imigração tiveram um desempenho inesperadamente positivo nas urnas em vários países europeus, incluindo aqueles com uma tradicional reputação de tolerância.

Mesmo sem a entrada da Turquia na UE, a percentagem da população muçulmana européia continuará a crescer rapidamente.

A maior parte dos países membros possui taxas de natalidade muito baixas. Os muçulmanos europeus têm um número médio de filhos três vezes maior do que as famílias de raízes européias tradicionais. E quase um milhão de imigrantes legais ingressam na Europa todos os anos, muitos deles provenientes de áreas islâmicas como a África, o Paquistão e a Turquia.

A questão com a qual os países europeus se defrontam é como equilibrar tolerância e assimilação. Até que ponto as nações devem aceitar as diferenças culturais? E até que ponto os recém-chegados são obrigados a aceitar os valores dos países para os quais se mudam? 

"A importância do islamismo nas vidas de tantos muçulmanos europeus é de difícil compreensão para povos cada vez mais seculares, como escandinavos, alemães e franceses", segundo um relatório da organização Pew Forum on Religion & Public Life, com sede em Washington. "Os europeus se preocupam com a possibilidade de o islamismo fazer com que seja difícil para os seus vizinhos muçulmanos aceitar valores centrais do continente, como tolerância, democracia e direitos iguais para as mulheres".

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