(PITÁGORAS, 2010)
Verdade nua


Em seu livro “A arte de escrever”, o filósofo alemão Schopenhauer
afirma que a verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é
mais profunda quanto mais simples for sua expressão. O grande Schop se
refere aqui à clareza de expressão na escrita, mas podemos adaptar o
conceito a outras áreas. Uma verdade se evidenciou nesse episódio da
expulsão da estudante Geisy Arruda pela faculdade Uni(tali)ban: o
preconceito que existe não só contra as mulheres, mas contra a nudez em
si. Não sei se um rapagão que chegasse seminu às aulas teria sofrido os
mesmos insultos que sofreu Geisy - é claro que as mulheres são sempre
muito mais destratadas –, mas é provável que o varão seminu também
causasse algum alvoroço.

Não estou aqui defendendo a tese de
que alunos devam comparecer às aulas pelados, mas é inegável que esse
acontecimento serviu para, desculpe o trocadilho, desnudar alguns
preconceitos latentes entre nós. Quanto mais reacionária e opressiva uma
sociedade, mais ela combate a nudez. O que a nudez esconde de tão
perigoso? Não nascemos todos nus, afinal de contas? Até mesmo Adão e
Eva, antes de cometerem a besteira de comer aquela maçã apetitosa,
andavam nus pelo paraíso, balangando inocentemente suas genitálias ao
sabor do vento.
Quando Colombo, e depois Cabral, chegaram à
nossa América, os verdadeiros donos da terra, os índios, andavam nus sem
o menor problema. No Brasil, somos famosos por nossas mulheres seminuas
nas praias, nos desfiles de carnaval, nas tribos e nas ruas das cidades
calorentas. Qual o problema, afinal? O que membros sexuais têm de tão
ameaçador? É provável que, a essa altura, Geisy já tenha recebido um
convite da Playboy para posar nua. E Fernanda Young, na mesma Playboy,
fez de sua nudez um ato político de confrontação a nossas caretices. Na
Universidade de Brasília alunos se despiram em solidariedade a Geisy.

Quer saber? Resolvi tirar a roupa também. Escrevo essa crônica
pelado, em solidariedade a Geisy. Tô pelado, oba! Viva a nudez! Se
alguém quiser me acompanhar, enquanto lê a crônica, sinta-se à vontade.


Fonte: Disponível em: <http://veja.abril.com.br/blog/cenas-urbanas/brasil/verdade-nua/>. Acesso em: 25 nov. 2009.



O discurso do título da crônica – Verdade nua –, conforme o contexto, pretende

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Respostas

  • Usuário do Brainly
2014-08-29T18:39:09-03:00
Alertar os leitores pelos fatores sociais que caracterizam as situações, as culturas e os preconceitos no dia a dia: ser humano com argumentos.
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